Por Igor Conde e Robledo Mendes
José Ferreira da Silva Neto, 55 anos, é um agricultor familiar que, tendo nascido no meio rural de Pernambuco, conseguiu voltar ao campo após 18 anos trabalhando como mestre de obras na cidade. Com muito sacrifício conseguiu adquirir um pedaço de chão para sua família no município de Paraty, no Rio de Janeiro, onde ergueu o Sítio São José. Há mais de 10 anos, com apoio de amigos e do Grupo de Agricultura Ecológica da UFRuralRJ, ele vem realizando um trabalho exemplar de produção agroecológica e educação ambiental na região. No dia 25 de julho de 2011, agentes de fiscalização do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente) emitiram dois autos de infração em nome de José Ferreira, relativos à construção de sua casa e à 12 áreas de agrofloresta presentes no sítio.
Zé Ferreira, diz pra gente, como você veio parar em Paraty?
Zé – Depois de tanto tempo trabalhando na cidade, sem saúde e sem perspectiva de vida, resolvi buscar meios de voltar às minhas origens, o que era o meu sonho. Recebi a proposta de arrendar esta terra em Paraty, larguei tudo e vim com a família na cara e na coragem. Logo me tornei dono de parte da terra em troca de prestação de serviços pro proprietário. Após um tempo o proprietário abandonou a parte dele e eu consegui regulamentar a posse de toda a terra em 1988.
Como era essa terra antes de você chegar?
Zé – A área estava completamente degradada. Era tudo desmatado, um grande pasto com algumas monoculturas de banana. Floresta mesmo só tinha nas áreas que não dava pra fazer agricultura. As propriedades vizinhas não estavam diferentes. Havia muito poucos animais e pássaros nativos da região.
No passado essa região era um pólo de extração de madeira, com apoio total do governo. As toras de madeira que eram cortadas vinham da floresta pelo rio e chegavam até as serrarias, onde eram trabalhadas para depois saírem do país pelo porto em navios abarrotados. Esse foi o início do desmatamento na região. Pra piorar, com o passar do tempo vieram a construção da estrada Rio-Santos, das usinas nucleares e dos condomínios de luxo, favorecendo a especulação imobiliária e o turismo predatório que além de expulsar os agricultores de suas terras aumentou muito o desmatamento. E tudo com o apoio do governo e aprovado pelos órgãos ambientais, em nome do “desenvolvimento” da região.

Fotos do Sítio São Jóse: em 1990 e em 2010
Fale um pouco do seu projeto “Auto-sustentabilidade com qualidade de vida”, como ele se desenvolveu?
Zé – Na época que eu cheguei aqui não sabíamos como funcionava a Agroecologia. Trabalhávamos com monocultura de banana e café, sendo a banana o carro chefe do sítio. Com a entrada no município da banana produzida em outros estados a um preço menor, quebraram todos os bananeiros da Costa Verde. Eu fui obrigado a voltar a trabalhar na construção civil por um tempo pra complementar a renda da família, que o sítio já não sustentava. Era um momento crítico de desânimo total.
Daí um dia eu fui à cidade resolver uns problemas e me apresentaram o Rodrigo Bacellar, agrônomo da Universidade Rural que estava fazendo residência agrária em Paraty. Ele me falou da tal agrofloresta, que é uma forma de plantio que mistura as culturas agrícolas com árvores, dessa forma conseguimos produzir alimento diverso sem usar adubo químico e veneno e ainda recuperando a mata. Ele então me convidou pra uma visita técnica à Barra do Turvo (onde hoje existe a Cooperafloresta), pra conhecer as experiências agroflorestais dos agricultores de lá. A visita foi muito boa, tanto que ao voltar me envolvi com os mutirões agroflorestais e as mobilizações locais daqui e passei a produzir mudas e experimentar a agrofloresta no sítio. Hoje, após 10 anos de agrofloresta, já plantamos cerca de 100.000 mudas nativas, já realizamos 8 vivências agroecológicas e recebemos mais de 4.500 visitantes, dentre agricultores, técnicos, estudantes, professores e curiosos das mais diversas regiões do Brasil e do mundo.
Graças a Deus nosso trabalho já repercutiu bastante, gerando dados pra Universidades e já foi foco pra diversas pesquisas, incluvise monografias, artigos e reportagens, uma delas na revista National Geografic americana. Até o Canal Futura já veio aqui fazer um filme com a gente, que passou no programa Bom Jeitinho Brasileiro.
Como resultado do trabalho, já me convidaram pra dar palestras e apresentar o sucesso da experiência do meu sítio em Universidades, Congressos, Encontros. Recentemente palestrei no TEDx, encontro internacional independente que trata da sustentabilidade no planeta. Já fui até contratado pela Embrapa para ajudar a implantar sistemas agroflorestais por aí. Em todos os locais que vamos somos muito bem recebidos e todo mundo admira nosso trabalho. Muita gente já se converteu à agroecologia e parou de usar veneno depois de visitar nossa experiência.
Explica pra gente, como surgiu essa estória de multa?
Zé – No início de 2009 vieram uns agentes do ICMBio e disseram que consideraram as atividades do Sítio como danosas ao meio ambiente, porque estamos situados dentro de unidade de conservação. Agora em julho os agentes vieram de novo, trazendo duas multas. A primeira multa diz: “ficam embargadas as construções: casa1, casa 2, rancho, curral e lago”, no valor de R$2.000,00. A segunda multa diz: “Fica embargada as atividades de agrofloresta na área de 8 hectares”, no valor de R$500,00. O que eles não levaram em consideração foi o quanto que eu trabalhei pra recuperar essa área e produzir alimento saudável pra ter uma vida digna protegendo o meio ambiente.
O que a gente não entende é porque os órgãos ambientais não apóiam quem está tentando modificar essa realidade de destruição e ao invés de estimular, pelo contrário, castigam quem tenta viver de acordo com a natureza, é uma maluquice. Pra mim os agricultores familiares agroecológicos na prática são os verdadeiros guardiões da natureza, dentro ou fora das unidades de conservação. A gente pode ver isso no caso da palmeira juçara. Recentemente surgiram na região uns projetos muito bacanas de recuperação e resgate da juçara, que é uma palmeira nativa da mata atlântica, muito visada por produzir palmito. Só que quando os técnicos iam procurar no parque as matrizes da palmeira para conseguir sementes, não achavam. E onde ainda tinha a palmeira conservada? Nos quintais dos agricultores familiares. E aqui na minha área fui eu que conscientizei os palmiteiros que vinham aqui cortar a juçara. Hoje eles plantam palmito.
Pelo visto, ainda falta muito para que o Estado enxergue os agricultores familiares como potenciais guardiões e protetores da natureza e dê meios para ajudar a transformar essa realidade. Enquanto a relação dos órgãos ambientais e dos agricultores não for de diálogo e apoio mútuo, a sociedade como um todo continuará perdendo e a natureza continuará sendo depredada.
Esse é apenas um dos exemplos de agricultores agroecológicos que enfrentam problemas com órgãos de fiscalização, que insistem em conflitar as comunidades tradicionais e as unidades de conservação, enquanto os latifúndios, as monoculturas, os megaprojetos e os empreendimentos empresariais como portos, condomínios de luxo, hidroelétricas, termoelétricas e usinas nucleares são incentivados e aprovados a toque de caixa, mesmo com todos os prejuízos sociais e ambientais que causam (desmatamento, poluição do solo e da água, remoções de comunidades, entre muitos outros). Apesar do que é propagandeado pelo governo, na prática o que podemos ver é a agricultura familiar, verdadeira produtora de alimentos do povo brasileiro, sendo deixada à míngua e à própria sorte. No final, mais uma vez é o trabalhador quem paga a conta.

Foto da multa aplicada ao sr José Ferreira
“Deus criou o homem e o colocou na natureza. Ele não nos colocou com inimigo ou predador, mas nos deu a responsabilidade de viver respeitando, usufruindo e cuidando do que ela nos dá. A palavra de Deus diz: e ele mesmo dará conhecimento ao homem do campo, para que ele cultive a terra e produza o seu pão.”
José Ferreira da Silva Neto